Hoje, domingo, depois de uma noite que eu queria que se prolongasse por dias, sem vontade de levantar e depois de um café da manhã dos campeões (meu apetite está absurdo), talvez até por isso, fui ANDAR. Desci a Angélica, fui dando voltas por dentro pra alongar e diversificar o percurso e as coisas para ver - pq, pra mim, andar por andar é dose (opinião que mudaria em mais alguns instantes), e voltava sempre para a Angélica como referência. Desci até a casa do caralho bastante mesmo.
Até aí nada demais.
Quando cansei de descer e já estava subindo um bom pedaço, a um quarteirão (na Angélica, no sentido de quem sobe) da Av. Higienópolis, percebo um cadeirante.
(imagem: http://4.bp.blogspot.com/_ZKi1Vzhxjr4/SwkGl_5xtSI/AAAAAAAABCw/N5a_WaMSTBo/s1600/cadeirante+2.jpg)
Na foto, um cara mais macho que vc.
Bom, só pra ilustrar, o cara estava todo bem vestido, roupas de marca, tinha lá seus 40 e poucos anos, bem constituído. Mas era um aclive, estava sol, a calçada é uma merda e está toda esburacada (Aqui tem trabalho bem feito e SP é 1 estado cada vez melhor, lembra?). E o cara sozinho.
Pensei por aproximadamente 0,0001 s sobre a possibilidade de o cara me mandar à merda ou se assustar se eu o abordasse. Antes do 0,0001 s passar inteiro, me vi falando:
"Quer 1 forcinha aí, brother, pra onde c tá indo?
Ao que ele responde, com a MAIOR simpatia do mundo, um sorriso no rosto, sem recalque nem frescura nenhuma:
"Quero sim, estou passeando, vou andar na avenida (Higienópolis) e depois vou pro Shopping (Higienópolis)"
Sozinho. E isso obviamente não era um problema para ele mais do que para mim, que posso andar.
Assim que chegamos na avenida do Shopping, ainda perguntei se ele queria que eu o ajudasse a atravessar no farol, ele Nada, já tá bom, daqui eu me viro sozinho.
Subi o resto do caminho, além de me sentindo bem melhor comigo mesmo (pequenos gestos desinteressados tem esse poder) pensando que, apesar de cada um ser cada um e não ser possível falar: olhaí o cara, fodido mas sai pra lá e pra cá, cheio de disposição, PELO MENOS ele é...
a) uma inspiração para por as coisas (problemas) em perspectiva;
b) uma oportunidade de agradecer quem eu acredito, por poder ANDAR. Qual foi a última vez q vc ficou satisfeito, agradeceu ou ao menos teve CONSCIÊNCIA de que pode ANDAR?
c) um cara bacana. Poderia ser 1 miserável com ódio da vida e ter mandado eu cuidar da minha própria quando ofereci ajuda, mas talvez ainda haja pessoas que encaram a vida e/ou o tempo que passam aqui - dependendo do que vc acredita, ou não, como um tempo a ser VIVIDO, em oposição a um tempo simplesmente GASTO, ou pior, dependendo do ponto de vista, desperdiçado.
É CLARO que outro cadeirante em condição social inferior a esse poderia estar revoltado, um monte de coisas são óbvias, eu não nasci ontem e etc e tals, mas a intenção é mostrar um lado positivo nas coisas. Pq lados negativos já não falta quem mostre.
Parabéns ao bacana da cadeira e obrigado por ter feito meu dia melhor.